A gaúcha Lúcia Stumpf, 25 milita no movimento estudantil desde os 16 anos e, em julho, foi eleita presidente da União Nacional dos Estudantes [UNE]. Ao repórter Felipe Paranhos, ela falou sobre a história da UNE, os planos para a sua gestão, as dificuldades em atrair estudantes para o debate político e a utilização do movimento estudantil como trampolim para o governo.
A TARDE – Como você lida com a responsabilidade de presidir a maior organização estudantil brasileira?
LÚCIA STUMPF – A responsabilidade é muito grande, por conta do papel que a UNE teve ao longo da história e das pessoas que já passaram por aqui. Além do fato de ser jovem, minha responsabilidade aumenta pelo fato de eu ser mulher, pois o machismo ainda está arraigado dentro da universidade, e também no movimento estudantil. Vejo com bastante otimismo a entrada da nossa gestão, que vai beber no passado de 70 anos e buscar construir uma UNE mais ousada e que seja capaz de fazer uma universidade melhor e um Brasil menos desigual para nossa geração.
AT – Você fez parte da diretoria anterior da UNE. O que esperar da sua gestão: mera continuidade ou mudança?
LS – A UNE, em seus 70 anos, sempre manteve uma linha firme, em defesa do Brasil e lutando pela construção de uma universidade diferente. No congresso que me elegeu, pudemos envolver na eleição representações de dois terços do universo de estudantes do Brasil. Acho que estamos mais maduros para exercer o nosso papel e ter poder de mobilização. Estamos mais preparados, pois esse momento do país nos exige uma postura mais ousada e radical em relação ao conjunto de estudantes brasileiros, com mais lutas de rua.
AT – Quando se fala nos tempos áureos da UNE, se pensa no passado, no combate à ditadura. Qual a avaliação que você faz da postura da UNE hoje?
LS – A UNE dos anos 60 e 70 tinha 230 mil universitários para dialogar, enquanto hoje temos 5 milhões. Hoje, o conjunto de estudantes reúne gente muito diferente: na universidade está o jovem de classe média, que não tem problema a não ser estar estudando; tem o filho do trabalhador, mais pobre, que luta para trabalhar e estudar. Pra tentar achar esse link pro diálogo, seremos uma gestão ainda mais diferenciada em suas pautas.
AT – Que pautas são essas? São aquelas que a imprensa chamou pejorativamente de “light”?
LS – Essas mesmas. Não são pautas light, são pautas importantes e muito justas para os estudantes brasileiros. Vamos debater meio ambiente, racismo, homofobia, legalização do aborto, das drogas, construir mais Circuitos Universitários de Ciência, Cultura e Arte [Cuccas] para aproximar um número maior de gente e superar os desafios que se colocam para a nossa geração.
AT – Muitos dos dirigentes estudantis utilizam o movimento como escada para o poder. O estabelecimento de novos rumos não podem desunir a UNE?
LS – Não sei se vai desagradar essas pessoas, mas a UNE tem que estar preocupada com o desafio e o papel que deve cumprir agora. E, com certeza, esse papel não é servir de trampolim político para quem quer que seja. É claro que a UNE forma quadros que conseguem espaço no poder, mas isso acontece menos por ser escada para o espaço político e mais por ser uma escola para a democracia. Aqui há diretores ligados aos Democratas, PSDB, mas também à esquerda: PT, PC do B [ao qual Lúcia é filiada], PSol.
AT – Em 6 de junho, a UNE fez o Dia Nacional de Mobilização nas Universidades Públicas. Qual o balanço que você faz dos protestos?
LS – A jornada nacional teve a ocupação de 15 instituições, entre públicas e privadas, e exigiu do governo pelo menos R$ 200 milhões para ser utilizado em assistência estudantil: auxilio-transporte, creches, moradias estudantis. Tudo isso para ajudar os estudantes carentes que entram na faculdade, mas não conseguem se manter, por conta de todos os custos que estar no ensino superior implica. Tivemos um resultado positivo, já que chamou bastante a atenção da sociedade para o problema.
AT – Na Bahia, a manifestação levou apenas cerca de 20 pessoas à Reitoria da UFBA...
LS – Acho que, nesse caso, faltou diálogo entre a representação estudantil. Tanto que, aí na Bahia, a UEB [União dos Estudantes da Bahia] reuniu 5 mil estudantes nas ruas [o número de manifestantes foi inchado por conta da participação de movimentos sociais]. Acho que aí, assim como no resto do país, não existe uma limitação grande do movimento com os estudantes.
AT – O movimento estudantil parece ter perdido representatividade. O que falta para que a UNE atraia mais estudantes?
LS – Acho que falta diálogo, mas, como eu disse, não acho que o contato entre o movimento estudantil e os estudantes seja tão fraco assim. Existe, sim, uma realidade que impõe aos alunos um individualismo constante. Quando se olha pro lado, nas salas de aula, se vê um concorrente pro mercado de trabalho, não um colega. Queremos despertar a necessidade de lutar pelo bem comum. Precisamos de pautas nas quais o estudante se sinta representado, que o toquem de alguma forma. A abertura de novos debates deve atrair mais estudantes para o diálogo.
AT – As reivindicações mais conhecidas da UNE dizem respeito às universidades públicas. De que forma a UNE se posiciona sobre a expansão desenfreada das faculdades particulares?
LS - As instituições de ensino superior particulares, de posse dos barões do ensino, são terras-sem-lei, sempre aumentando as mensalidades além da inflação, muitas vezes expulsando estudantes que tentam construir diretórios estudantis, impedindo inadimplentes de fazer prova ou de entrar na faculdade. Vamos exigir um conjunto de leis que regulamentem o ensino, para chamar a atenção da sociedade e do próprio governo federal para nossa pautas de reivindicação.
AT – Que avaliação você faz das iniciativas do governo para proporcionar a entrada de estudantes pobres no ensino superior?
LS - Acho que algumas medidas são positivas, como a ampliação do ProUni. Apesar de ter uma série de debilidades, como conceder bolsas para faculdades de qualidade duvidosa, o ProUni possibilitou o ingresso do filho do trabalhador, que não teria essa chance, na faculdade. O Fies, por exemplo, é muito excludente. Os mesmos juros que você paga para comprar um carro, paga para financiar seus estudos. Uma das nossas reivindicações é dobrar o número de bolsas concedidas pelo ProUni e, sobretudo, a ampliação das vagas em escolas públicas. O governo Lula instituiu as cotas, criou novas universidades federais, mas ainda não fez o suficiente para suprir a demanda remprimida que o jovem tem para com a universidade hoje.