Elogiar o trabalho do cartunista e artista plástico Cau Gomez é chover copiosamente sobre o molhado. Bem-sucedido, esse mineiro de Belo Horizonte, nascido Cláudio Antônio Gomes em 1972, é aquele tipo de profissional cujo currículo fala por si: quatro dezenas de prêmios, ganhos não apenas no Brasil mas em diversas partes do mundo, adornam sua estante. Seus cartuns foram exibidos e premiados em países como Turquia, Cuba, Grécia, Espanha, Irã, Portugal e Itália. Além de trabalhar em A TARDE, já publicou trabalhos em veículos como O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Playboy, Pasquim e outros. É colaborador da revista francesa Courier International. Apesar de tudo isso, Cau é uma pessoa que, longe de carregar no distanciamento típico que acomete muitos artistas bem-sucedidos, é absolutamente acessível, afável, sem qualquer traço de arrogância. Contudo, ele não é bobo, sabe do seu valor. Suas influências são amplas como o alcance do seu trabalho, indo de artistas plásticos clássicos, como Toulouse-Lautrec e Picasso, a mestres da HQ como John Buscema, Will Eisner e Jack Kirby.
Em 2008, completa 20 anos de atividade profissional ininterrupta. Excelente oportunidade, então, para apresentar aos leitores, nesta entrevista ao repórter Chico Castro Jr., um pouco mais do homem e das idéias que o norteiam. No dia 23, ele lança na Galeria do Livro (Boulevard 161), em Salvador, a nova edição da conceituada Revista Gráfica, apresentando 25 páginas com trabalhos seus.
AT | Fale um pouco como você iniciou sua carreira.
Cau Gomez | Profissionalmente, comecei em 1988, aos 16 anos, na mesma redação onde o Henfil tinha trabalhado, o Diário de Minas. Faço parte de uma geração que cresceu nos salões de humor Brasil afora, que tem o Rodrigo Rosa [do Rio Grande do Sul], o Dálcio [de Campinas]... Sempre que o Ziraldo dá uma entrevista ele fala dessa turma de 72 (ano em que nasci).
AT | E você já ganhou muitos prêmios?
CG | Já passei da marca dos 40 prêmios em salões de humor. Sem falar nas menções honrosas, que são, na verdade, pequenos prêmios de consolação.
AT | Seu trabalho tem um toque bem pessoal, um misto de cartum com artes plásticas, confere?
CG | Acho legal voltar a trajetória profissional no sentido de criar uma linguagem própria, sem precisar do endosso dos júris dos salões. E aí entra uma coisa que eu gosto muito, que é a fusão das linguagens do cartum e das artes plásticas. Quando estive em Buenos Aires eu visitei o estúdio do Hermenegildo Sábat, que é um grande cartunista uruguaio e lá tirei todas as minhas dúvidas sobre o que é cartum, o que é artes plásticas e como essas linguagens podem dialogar.
AT | O que mudou no trabalho do cartunista com a evolução da internet?
CG | A internet é muito legal porque nela, uma pessoa interessada no trabalho de um artista, por exemplo, pode pesquisar e acabar conhecendo vários outros. Fui embaixador de humor do site Brazil Cartoon (www.brazilcartoon.com), que é de um cara chamado Leite. A quantidade de trabalhos originais que apareceram ali foi espantosa, tem muita gente boa aí trabalhando, mas que o grande público ainda não conhece.
AT | Você descobriu sua vocação desde cedo? Como foi o despertar do artista em você?
CG | Na escola, eu sempre fazia caricaturas dos professores, e geralmente eu escolhia aqueles que eram os mais sisudos. O legal é que eles sempre acabavam se desarmando e dando risada quando viam o desenho no papel. Já pintei carrinho de sorvete, muro de escolinha, o escambau. Isso, desde que eu tinha uns 12 anos. Pintei todas as escolas do meu bairro lá em Belo Horizonte. Por causa disso, também nunca me faltou grana, o que era ótimo naquela idade, como você pode imaginar. Agora, o cara tem que ter vontade, gostar de trabalhar e não ter medo nem se incomodar com as críticas.
AT | Você domina diversas técnicas, correto?
CG | Faço pintura em madeira, pintura a óleo, acrílica, o que vier. Mas estou sempre em busca da pegada estritamente autoral, inusitada, tentando driblar a mesmice. Isso requer esforço, pesquisa. Por exemplo, tinha uma dupla de desenhistas de HQ que eu adorava, os irmãos John e Sal Buscema. O John até já morreu, ele desenhava muito Conan, O Bárbaro. Então eu buscava o trabalho do John Buscema, que na verdade é manjadíssimo para quem lê HQ de super-herói, e ali, eu tentava descobrir aquele pontinho não-explorado, aquela característica da arte dele que ainda não foi tocada. Acho isso maravilhoso, buscar aquela referência oculta que só você percebeu e aí recriar alguma coisa em cima disso. Mais ou menos como colocar o Pixinguinha tocando com os Sex Pistols numa ilustração. (Risos).
AT | O que você mais gosta no seu trabalho? Ele é gratificante?
CG | Graças a Deus, meu trabalho é uma grande diversão também. Com ele, é possível exorcizar a acidez na alma com doses homeopáticas, desenhadas com riso e mordacidade ao mesmo tempo. Outra coisa é que o cartum é uma linguagem que prescinde da língua para ser entendido. É uma idéia. Isso é maravilhoso.
AT | O trabalho na redação de um jornal diário é mais fácil ou mais difícil do que numa revista como a Playboy, por exemplo?
CG | É interessante que uma pessoa que trabalha com criação, com imagem, tenha tempo para maturar seu trabalho, mas no dia-a-dia de uma redação, o cara tem que ter seus macetes, e isso é uma coisa que só a experiência concede.
AT | Seu trabalho já lhe levou a correr o mundo. Qual é sua melhor memória dessas viagens?
CG | Ano passado mesmo, tive a oportunidade de ir à França para o Ridep, que é um encontro mundial de desenhistas da imprensa. Fui convidado não apenas a criar o cartaz oficial do evento, como também tive a honra de escolher dez dos maiores cartunistas do País para o evento. Aí levei o Angeli, o Dálcio, o Rodrigo Rosa... Também quando ganhei o Salão de Piracicaba, que é o grande prêmio do humor brasileiro, foi demais. Adorei quando me chamaram para ser júri de um salão na Colômbia. Tudo isso fica na memória, né?
AT | Quem você admira no cartum baiano?
CG | Um cara que eu acho uma revelação é o meu colega de A TARDE, Bruno Aziz, que vem chamando bastante atenção com seu trabalho. O Gentil e o Simanca, não precisa nem falar, né? Os caras são feríssimas, superexperientes. A equipe de arte do jornal está fantástica, é uma honra para mim trabalhar com essas pessoas.