A crise de identidade que Will Oldham passou na década de 90 afetou muito pouco do músico que Salvador vai conhecer nesta sexta-feira na boate Boomerangue. Até chegar à alcunha de Bonnie “Prince” Billy, seus projetos musicais mudaram de nome quatro vezes, sempre no intervalo de dois ou três álbuns.
Mas sua música, o típico folk-blues do Kentucky, permaneceu a mesma. E, talvez tão importante quanto, sua figura esquisita, careca e barbuda, também não mudou.
Sua passagem pelo Brasil pontua um momento muito específico na música do País. Nesta primeira década do novo milênio, os novos nomes que surgiram na canção jovem têm como referência o folk norte-americano. Seja a garota prodígio Mallu Magalhães, o grupo curitibano Vanguart ou os soteropolitanos da Formidável Família Musical. Estes fazem alusão a Johnny Cash, que, por sua vez, gravou, em um momento da carreira, as músicas de Bonnie “Prince” Billy.
Essa leitura de criatura em encontro com seu criador não é gratuita. O músico – celebrado como um dos melhores compositores da década de 90 – está de passagem, trazido pelo projeto Folk-se, que tem revelado esses novos nomes na noite de São Paulo.
E, apesar de a metrópole ser o novo centro dessa cena, quando foi convidado para tocar no Brasil, Bonnie “Prince” Billy disse que viria, mas com a condição de se apresentar pelo menos uma noite em Salvador.
A relação, entretanto, é quase lacônica. “Amigos me falaram sobre a cidade, mas não especificamente sobre música, mas sobre a cidade”, conta o músico.
Bonnie “Prince” Billy já fez dois shows elogiados em São Paulo, no fim de semana. E, apesar de ter sido celebrado pelo público de lá como um grande artista folk, ele ainda é modesto ao se posicionar dentro do gênero.
"Se eu gravasse um disco que se assemelhasse a alguma coisa de Bob Dylan ou Neil Young, seria a mesma diferença entre um western de Sérgio Leone e outro de John Ford", compara Will, humildemente, referindo sua composição a uma cópia menos glamourosa do folk original.
Talvez por isso ele tenha sido tão cooptado por um público ainda mais jovem, sendo associado sempre ao indie rock. Suas apresentações como Bonnie “Prince” são históricas por lidar com esses extremos, tendo toda energia do rock.
Por isso ele é antes de tudo um provocador. Ao começar por não não aceitar se encaixar como artista folk. "O que é música folk? qualquer um que cante e use violão se torna automaticamente um artista folk?", dispara.
"Estou perto de me aposentar, não quero entender essas divisões entre tipos de música", diz ele, que não acredita em ouvir música pelo computador. "Gosto de ouvir música em lugares de verdade, onde a vida acontece, não conheço esse conceito de ouvir música no computador".
Mesmo assim, essa sobrevida que a carreira de um artista tão específico consegue, acontece graças à internet. A passagem de Bonnie “Prince” Billy pelo Brasil já rendeu uma página inteira de resultados em buscas por vídeos na rede.
Em alguns deles, estão trechos das apresentações que fez em São Paulo, nas outras, ele já está no bar ensinando a amigos e fãs como tomar tequila como um pirata. Um detalhe: logo depois, ele se levanta e, literalmente, some nas ruas. Mas foi reencontrado, e a vinda a Salvador garantida.
Quem abre o show de Bonnie “Prince” Billy no Boomerangue é a Dois em Um. Formada pelo ex-Penélope Charmosa e produtor Luisão Pereira e a violoncelista Fernanda Monteiro, será o primeiro show oficial da dupla, que lança um primeiro EP já com porte de banda pronta para um mercado maior. Receberam dois prêmios no Bahia de Todos os Rocks, de Música do Ano e Ano Um (para estréias) e estreiam ao lado de um nome internacional.
Serviço:
Bonnie "Prince" Billy e Dois Em Um | Sexta, 28, 22h | 2º Piso da Boomerangue (3334- 6640) | R. da Paciência, Rio Vermelho | R$ 100 (mesa para 4 pessoas) e R$ 15 (pista)
MySpace com músicas para ouvir
Canções de Bonnie Prince Billy
Assista a vídeos
Clipe da música Horses
Ohio River Boat Song, ao vivo em Kentucky