Doutor em Teologia, filosofia e política, Leonardo Boff deixou a vida como padre em 1992, quando percebeu que a Igreja Católica não aceitaria as idéias da Teologia da Libertação, da qual o então sacerdote é um dos principais teóricos. Desde então, tem se debruçado sobre os problemas sociais causados pelo sistema capitalista de produção: a fome e as doenças conseqüentes da miséria e a destruição da natureza. Em passagem por Salvador para o lançamento de um DVD sobre Ética e Meio Ambiente, Boff falou à equipe de reportagem do A TARDE ON LINE sobre a necessidade do cuidado do homem com o outro e com a casa comum, o planeta Terra.
A TARDE ON LINE – Seus últimos dois livros, publicados em 2008 (Homem: Satã ou anjo bom e Ecologia, Mundialização e Esperitualidade), abordam a questão ambiental. O tema tem sido o foco de seus estudos e preocupações?
Leonardo Boff – Eu pertenço, desde a Eco-92 (ou Rio-92, foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento - CNUMAD), a um grupo de pensadores que idealizou a Carta da Terra. Para escrevê-la, nós realizamos, de 1992 a 2000, uma sondagem da humanidade, para saber o que ela quer da Terra e o que se deve fazer para salvar o planeta. Foram mobilizadas mais de 100 mil pessoas em 46 países e daí saiu o documento (Carta da Terra) que eu considero um dos mais belos. Ele exprime a preocupação humana com o planeta e o que pode ser feito para reverter o quadro atual. Desde então, a ecologia tem sido uma preocupação constante para mim.
On Line – Este documento exerce alguma influência sobre as políticas públicas de meio ambiente ou sobre as possíveis punições aos crimes ambientais?
LB - Olha, a Carta da Terra tem que ser pensada junto com a Agenda 21 (uma espécie de plano de ação que determina um padrão de desenvolvimento para o século XXI a ser adotado global, nacional e localmente). A carta é um marco de princípios e valores de cuidado com os ecossistemas, a ética de responsabilidade, o sentido espiritualidade, de respeito a todos os seres vivos. E a Agenda 21 é como aplicar isso no concreto, junto ao Estado, aos municípios, mas não são só as questões ambientais. Também trata das questões sociais, do saneamento básico, agricultura familiar, alimentos não contaminados, etc.
On Line – O senhor divide o conceito de ecologia em quatro: ambiental, social, mental e integral. Quais são as diferenças entre eles?
LB – Ecologia ambiental se trata dos ambientes da natureza, de fauna e flora, dos ecossistemas e biomas. O ambiente social é o plano onde o homem convive e se integra com todos os seres vivos, fazendo parte dele, mas que precisa de cuidados especiais. Temos que cuidar uns dos outros. A ecologia mental se trata da espiritualidade, da consciência que o homem deve ter sobre a sua existência e a dádiva da vida. Por fim, a ecologia integral absorve todos estes conceitos, relacionando todos os seres vivos que habitam a terra. Neste plano, a vida é o maioR valor a ser preservado.
On Line – Nas suas publicações sobre meio ambiente, o senhor fala da necessidade do resgate da dimensão do feminino na nossa sociedade. O que seria isso?
LB – O feminino, tanto no homem como na mulher, é toda a dimensão de sensibilidade, de ternura, de amor, de respeito, de espiritualidade, de captação da mensagem das coisas. E o masculino é a dimensão mais racional, de ordenar, de abrir caminho, de construir um projeto, de impor-se sobre o outro. Então, a nossa cultura inflacionou o masculino, ficou uma cultura machista. Desfeminilizou a mulher, obrigando-a a trabalhar da mesma forma que os homens e tiranizou o ser humano, sufocando a dimensão do sentimento. Então hoje, se nós queremos salvar a Terra, temos que ter um profundo amor a ela. Temos que sentir seu sofrimento, chorar com a violência que se faz a ela e aos seus filhos. Então, o feminino é primordial para se resgatar a razão sensível e limitar a razão analítica, racional, que dominou a nossa cultura nos últimos 400 anos.
On Line – Como é possível, numa sociedade cujo reconhecimento social está baseado nas posses materiais e no status, “plantar” os valores da solidariedade, do respeito ao próximo e da vida como bem maior da humanidade?
LB – Primeiro, é preciso tomar consciência que há uma contradição entre a lógica da vida e a lógica do sistema de produção capitalista, que visa o crescimento explorando a natureza e acumulando riquezas. Ao continuar esse sistema, nós vamos ao encontro do pior. Vai se criar uma situação tão caótica que a Terra vai eliminar milhões de pessoas até encontrar o equilíbrio novamente. Esse tipo de sociedade criou o aquecimento global, porque viu a Terra somente como um objeto, um baú de onde se extraem coisas. Não vê a Terra como um organismo vivo do qual todos nós fazemos parte. A quem pertence a Terra, aos capitalistas? Eles se apropriaram do planeta. A Terra pertence a Deus e a todos nós. É difícil mudar esta mentalidade, mas nós vamos ter que mudar porque a crise ecológica é tão grande que, ou mudamos, ou morremos. E o ser humano, na verdade, só aprende com sofrimento. E nós estamos indo ao encontro desta grande crise.
On Line – As pessoas parecem se apropriar do discurso ecologicamente correto, mas a prática do cotidiano não parece mudar...
LB – É porque não sentimos na pele, ainda, o efeito. Tem uma frase famosa de Hegel que diz O ser humano aprende da história que não sabe nada da história. Pois é, só aprendemos mesmo com o sofrimento. Temos que dar uma trégua à terra, dar paz a ela, para que ela se recupere. Fala-se muito em desenvolvimento sustentável. Eu falo em retirada sustentável. Chegou a hora de socializarmos tudo o que foi acumulado e conquistado. Há dinheiro e tecnologia suficiente para isso.
On Line – Para as novas gerações, que podem ouvir o termo, mas não conhecem os fundamentos da Teologia da Libertação, quais são os conceitos essenciais da prática libertadora?
LB - A prática de entrada da Teologia da Libertação é o trabalho popular, seja em favelas, com os Sem-terra ou Sem-teto, ou seja, aquele mundo que vive sobre a opressão gerada pela espoliação do outro e da natureza. Aí vem a pergunta: Como é que podemos ajudar a superar esta situação? Neste sentido, o Cristianismo em si não liberta, mas ajuda a criar uma consciência nova de que a pobreza não é algo natural, de que a pobreza é uma coisa gerada pelo homem, de que Deus é o deus da Vida, que está próximo, de que o importante nesse mundo é a colaboração e não a riqueza. Porque a felicidade não está numa bolsa de marca, no dinheiro. Então, esses são os valores básicos. E temos que dizer que o Cristianismo não tira ninguém da pobreza. As pessoas oprimidas devem ser os sujeitos da sua libertação. Não é nem a Igreja, nem o Estado, nem as pessoas de boa vontade que vão mudar a situação. Estes podem ser aliados nesta luta. Então, essa Teologia é viva naquelas igrejas, nas paróquias que são sensíveis ao sentido de justiça.
On Line - O senhor acha que a Igreja, como instituição, está mais próxima da sua comunidade?
LB - Eu acho que como instituição, a Igreja está dividida. De um lado, ela tem os bispos, os cardeais e os padres que pertencem ao mundo da modernidade. Eles se adaptam à nova situação, mas não têm uma consciência de mudança. Eles podem até contribuir para a melhoria da situação, mas não para uma mudança da situação. E esses são desenvolvimentistas, progressistas, são modernos. Mas, não uma modernidade que seja boa. Por outro lado, existem outros, que fazem uma análise apurada da realidade e dizem que esta realidade é injusta, esta pobreza é indecente, é fruto de um sistema que destrói a natureza e põe em risco até a sobrevivência no planeta. E esses, então, lutam para mudar, têm uma visão libertadora da prática cristã. Por isso, a outra, mais moderna e ao mesmo tempo conservadora, não consegue escapar da alienação. Como é que se pode falar de Deus para um mundo de miseráveis?
On Line – Neste sentido, o fato de a Igreja continuar condenando o uso da camisinha é uma atitude alienada?
Eu considero uma irresponsabilidade a Igreja fazer isso, dentro da realidade de disseminação das doenças sexualmente transmissíveis e da Aids. O uso da camisinha é um ato de amor para com o outro, para consigo mesmo, para não permitir a transmissão de uma doença. Usar caMisinha é ser responsável. E o que conta não é a camisinha é a relação com o outro, que pode ser profunda e amorosa. Isso é a visão de gente celibatária, que não tem sensibilidade para as relações profundas da vida, como é o amor e a intimidade com alguém. É uma visão moralista, negativa.