O cantor francês Jean Mitchell, 59 anos, morreu nesta terça-feira, 29, às 23h30, no Hospital Santo Antônio (Irmã Dulce), onde estava internado com infecção generalizada. De acordo com a amiga de Jean, Silvana Malta, ela ainda aguarda contato da assistente social da unidade de saúde para definir local e horário do enterro.
Jean era radicado em Salvador e conhecido como a maior atração de soul e blues da cidade. Antes de ser internado no dia 22 de março, o cantor estava vivendo como sem-teto. Ele foi encontrado desacordado por uma ambulância da Samu no Centro Histórico, que levou o músico para o Hospital Santo Antônio .
O quadro clínico do cantor piorou nos últimos dias. Ele respirava através de aparelhos, estava em coma induzido e tinha hepatite alcoólica e cirrose, em consequência do alcoolismo.
Perfil*
Batizado Jean Eugène Mouchére e nascido na França do general De Gaulle, sua estrada é um labirinto em que a trindade sexo, drogas e rock’n’roll foi uma constante, temperada com estadas em reformatórios, sarjetas, dentre suas provações.
Pode se dizer que nasceu com a tristeza do blues incrustada na pele. Na escola, tomava surras dos colegas porque era confundido com um argelino, e a ex-colônia àquele tempo estava em litígio com a França. Não adiantava explicar que sua mãe, mestiça de branco com negro, era filha de um homem da Martinica, no Caribe, e não do País africano.
Com 12 anos, algo de novo e revolucionário aconteceria: um amigo chegou em sua casa com um compacto de Eddie Cochran, contemporâneo de Elvis Presley, e as músicas foram executadas à exaustão no modesto apartamento. Por volta dos 16 anos, Jean era o próprio rebelde sem causa: odiava a escola, já não morava mais em casa e perambulava de marquise em marquise, apaixonando-se cada dia mais pela música de Ray Charles, Little Richard e Chuck Berry. Daí para a criação da Wimbles, sua primeira banda de rock, foi um pulo. Ali, no palco, o mundo se virava para ele, quando aquele magrelo esbanjava uma vocalise que lembrava Rod Stewart no timbre e Ray Charles no poderio.
De boca em boca, ainda na Paris dos anos 60, os Wimbles participaram de um concurso com seis bandas e ganharam. O prêmio não poderia ter sido melhor: abrir a noite para o lendário Chuck Berry e tocar, remunerado, em todas as bases americanas sediadas na França desde o fim da II Guerra Mundial. Um belo dia, sem emprego, passou a traficar maconha, até que a polícia o deteve com um quilo da erva.
Nos anos 70, a música brasileira se insinuou na vida do artista. Achou que todo mundo aqui vivia no bim-bom bossanovista. Quando desembarcou, não entendeu nada: Novos Baianos, Caetano e Gil eletrificados. Morou no Rio de Janeiro, interior da Bahia e, por problema de documentação, chegou a ser deportado. Voltou com mais dinheiro e uma mulher que depois largou. Após a semi-indigência nos bares da vida, encontrou verdadeiros companheiros em 1990 na Cantina da Lua, no Pelourinho. Na guitarra, estava o suíço Gini Zambelli, e no baixo, o venezuelano Keko Villaroel. Mal pôde acreditar nos acordes e riffs ouvidos. Deu canja e ficou.
*Zezão Castro, do A TARDE