“Sou um apaixonado pelo causa do diálogo inter-religioso” – é assim que William Tavares se define. Casado e pai de 2 filhos, William é pós-graduado em teologia e professor do Instituto de Teologia da Bahia (ITEBA), onde está há 10 anos. Com a experiência de quem é assessor em ecumenismo e pastoral familiar, nesta entrevista, ele defende o ensino religioso obrigatório, mas livre do que chama de “cela de aula”.
A TARDE On Line – O que é o ensino religioso e como ele deveria ser feito nas escolas públicas?
William Tavares – Acredito que o ensino religioso nas escolas deva ser um espaço de experiência e reflexão do místico, transcendente. Um espaço onde as pessoas possam se orientar e buscar seus valores: o valor da vida, da relação humana, o sentido da vida. É claro, que de alguma maneira isso vai passar pelo encontro com a religião e a fé. O ensino religioso pode ser um grande laboratório, onde as pessoas se descobrem a partir de Deus. Não podemos fechá-lo somente nos valores de uma religião. Digo isso, porque muita gente faz esse trabalho, mas transita apenas pelos valores que o cristianismo traduz.
On Line – Que tipos de implicações podem existir para a formação dos alunos, quando professores de historia, artes ou português dão aulas de ensino religioso?
William – Nós criamos aqui no Brasil a idéia de que, pra falar de fé, qualquer um está habilitado. E é provável. Mas para falar da ciência sagrada, da elaboração teológica não deve ser um professor de história, pois ele tem um ângulo – a visão da história. Acredito que a formação teológica dá para os professores do ensino religioso um diálogo maior. Ele não vai olhar a história, mas o lugar de quem produz ou conduz essa história. Vai ajudar esses alunos a serem sujeitos de sua própria história de fé.
On Line – O ensino religioso, segundo a lei, não é obrigatório. Deveria ser?
William – O ensino religioso deveria ser obrigatório do lugar que ele tem. A religião faz parte da pessoa humana. Uma coisa é você como disciplina estudar doutrina, outra coisa é pensar, refletir, experimentar da religião. Compreender esse universo da simbologia religiosa é muito importante. Acho que quem faz isso ou que melhor pode fazer isso é “o professor” ou “a sala de aula” ou “a disciplina” de religião nas escolas. Aprender religião nas escolas então, não é o dado confessional, mas exatamente este dado das simbologias. A formação religiosa nas escolas vai trazer para as pessoas a aproximação, o diálogo e a abertura para as diferenças.
On Line – É possível num país tão diverso em religiões como o Brasil, haver um ensino religioso único?
William – A minha reflexão hoje é a mesma que a de Darcy Ribeiro: Nós temos tudo pra dar certo com nossa diversidade. Precisamos é fazer essa revolução de dizer assim: “olha, até aqui nós temos feito assim. Vamos questionar, vamos modificar, vamos avaliar”. Pra dar certo, nós precisamos avaliar o que estamos fazendo. Infelizmente, o professor de religião ainda vem de uma cultura onde é formado numa religião apenas. Hoje, ele tem que ser muito mais do que isso.