Quem festeja o Dois de Julho agora 186 anos depois da Guerra da Independência da Bahia, não imagina as dificuldades enfrentadas pelo exército libertador. Uma carta de Lord Cochrane, o almirante inglês enviado por D. Pedro I para empreender o cerco pelo mar à cidade de Salvador, revela algumas das fragilidades dos vencedores. O documento é citado pelo historiador Braz do Amaral (1862-1949) na crônica “1823”, do seu livro Recordações Históricas.
Na carta Cochrane se queixa ao ministro José Bonifácio de Andrada e Silva das condições da frota que comandava, passando a ideia que o governo imperial entregou ao almirante uma espécie de “armada Brancaleone”. Os problemas começavam com a composição da tripulação dos 13 navios, formada por mercenários: 160 ingleses e norte-americanos, 130 ex-escravos e o restante marinheiros portugueses, esses últimos sem qualquer disposição para lutar contra seus patrícios que dominavam Salvador.
O melhor navio da frota, a nau capitânia D. Pedro I, apresentava situação de penúria, descrita pelo almirante na carta, da qual se destaca os seguintes trechos:
“Os cartuchos que temos são incapazes de servir e correm os artilheiros o perigo de perder os braços no trabalho de carregarem as peças. As velas estão todas podres, havendo as aragens ligeiras e frouxas, em nossa vinda para aqui, esfrangalhando um jogo delas, e as outras rasgando-se com a mais leve brisa de vento. As espoletas para as bombas são feitas de tão miserável composição que não pegam fogo”, descreveu.
Sobre os tripulantes Cochrane diz: “Os soldados da marinha nem sabem o exercício de peça nem de armas curtas, nem de espada, e todavia tem de si tão alta opinião que nem ajudam a lavar o convés, de sorte que, sendo inúteis como soldados de marinha são uma carga aos marinheiros”.
Esse relatório foi feito após a primeira escaramuça entre as frotas brasileira e portuguesa em 4 de maio na Baía de Todos-os-Santos. Braz do Amaral informa que apenas o navio português Princesa Real se dispôs a guerrear, trocando tiros com a nau D. Pedro I.
Ao perceber a superioridade do inimigo, Cochrane bateu em retirada para a região da Ilha de Tinharé. Os portugueses resolveram não perseguir os inimigos. Se o fizessem, Braz do Amaral não tem dúvidas que liquidariam a frota brasileira sem dificuldades, e talvez a data da vitória do 2 de Julho teria que ser adiada.